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sexta-feira, 25 de junho de 2010

SEM TROPEÇOS

Aécio Cândido
A encenação de 2010 do Chuva de Bala no País de Mossoró recupera a beleza plástica e o ritmo cênico perdidos em 2008

O sucesso das receitas de sucesso, ensinam os grandes chefes de cozinha, está na qualidade dos ingredientes. A lição é óbvia, e o povo a repete, com precisa concisão, na sentença anônima: “Com má farinha não se faz bom pão”. Esquecer esta recomendação simples é um passo para o desastre. Foi o que aconteceu com o espetáculo Chuva de Bala no País de Mossoró, em 2008, quando foi entregue à direção de Eliézer Rolim. Eliézer é um diretor competente, tem no seu currículo espetáculos criativos e ousados, mas, não se sabe por quê, ignorou o que todos sabem, e quis produzir um milagre impossível: um bom prato sem ingredientes confiáveis. Sem música criativa, sem coreografia marcante e, sobretudo, sem atores versáteis e experientes não existe musical grandioso. Sem a música de Danilo Guanais o Chuva de Bala... perde seu tom épico, sua dramaticidade envolvente. Claro que o espetáculo pode ter outra música, como pode também ter outra direção e outros atores. Contanto que cada um desses elementos isoladamente, e o conjunto como um todo, supere o que o público já viu. Pois o que o público já viu, regido pelo talento de João Marcelino, responsável pela direção, é um espetáculo redondo, ágil, preciso no ritmo, e profundamente emocionante.
João Marcelino não tem deixado o espetáculo envelhecer. A marca de sua encenação, presente desde a primeira montagem, é a contínua ousadia, o acréscimo de novos elementos cênicos, a re-elaboração criativa de cenas já experimentadas, o trabalho incansável com atores e bailarinos. A história, claro, é a mesma, com os mesmos personagens, o que muda é a forma de contá-la.
O sucesso do espetáculo deve-se à combinação harmoniosa entre seus vários elementos: texto, música, coreografia e interpretação dos atores. Pode-se acrescentar também o figurino, a iluminação e a maquiagem. Trata-se de um musical, e cada vez mais é como tal que ele se assume, o que implica em exigências redobradas para os atores, que precisam desenvolver dotes de cantores e de bailarinos. Mossoró está formando, nos grupos de teatro e nas academias de dança, algo incomum no Brasil: o ator múltiplo, que canta, dança e representa. Esta formação é comum nos Estados Unidos, não no Brasil.
Há harmonia entre os elementos cênicos e há homogeneidade na atuação dos artistas. O conjunto de atores, cantores e bailarinos, de protagonistas, coadjuvantes e figurantes é afinado e homogêneo. Ninguém brilha em demasia a ponto de ofuscar o outro e desequilibrar o espetáculo, de submetê-lo à sua atuação. Há destaques, evidentemente, mas sem se descolar do conjunto. Impressiona o Lampião criado por Dionísio do Apodi – interpretação marcante, calcada numa caracterização primorosa do personagem, o que inclui a dicção escandida que acentua a presença cênica do cangaceiro. É um ator meticuloso, maduro, em pleno domínio das ferramentas do seu ofício. Em contraponto, também impressiona a interpretação de Marcos Leonardo para o prefeito Rodolfo Fernandes - talvez mais despida de detalhes, mas nem por isso menos atraente. Em torno deles, um exército de coadjuvantes aplicados que dão precisão e leveza ao espetáculo. Jayson Leonardo, Plínio Sá, Renilson Fonseca, Cícero Lima dão conta de seus personagens com irrepreensível competência. Porém, o destaque maior, pela promessa que encerra, é para o jovem ator Madson Ney, que interpreta o motorista Gatinho. Trata-se de um personagem que diz o que tem a dizer em suas falas, mas que diz também muito na sua participação muda na cena. Madson lhe dá uma interpretação exata. Gatinho já teve interpretações caricatas e pouco agradáveis.
Mas o grande achado da montagem 2010 é a concepção dos personagens Tonha, Totonha e Toinha, narradoras da trama, encarnadas agora como coristas alegres e desajeitadas de um vaudeville mambembe. Três atores as interpretam: Leonardo Wagner, Júnior Félix e Paulo André. O resultado é hilário, sem nenhuma sombra de caricato, e a empatia com o público é imediata. Todos se revelam bons atores e cantores e até arriscam uma coreografia minimalista que se ajusta à medida aos personagens. O trabalho de Júnior Félix e o de Leonardo é o esperado: são atores experientes, já cantaram outras vezes em cena e têm molejo e versatilidade para personagens femininos. Aí a surpresa agradável é Paulo André: trabalho convincente e maduro. A atuação de Paulo André é a sua reconciliação com o Chuva de Bala..., depois de ter sido levado, na montagem de Eliézer, a encarnar um Rodolfo Fernandes aguado e claudicante numa encenação à deriva. O que se vê agora é um ator que responde à altura a partitura do diretor.
O espetáculo, montado para a cena aberta ao ar livre, tem um apelo visual arrebatador. Mas nele o texto é fundamental, já que celebra um episódio da história da cidade que se pretende repassar às futuras gerações. No geral, o casamento entre o texto, a música e a coreografia se dá muitíssimo bem. A música de Danilo Guanais não apenas sublinha a intensidade do drama; ela narra, ela faz avançar o enredo, ela conduz o espectador na compreensão emocionada da narração. No entanto, na cena das viúvas e beatas há um descolamento, por razões puramente técnicas – a mixagem pôs em evidência o acompanhamento instrumental e escondeu a voz das viúvas e carpideiras. A cena é de uma beleza plástica avassaladora: um pano imenso, cobrindo todo o palco, cria a metáfora de um mar agitado pela agonia dos desesperados. Nele, mas em planos diferentes, surge um Lampião reflexivo rodeado por cabeças que emergem, por braços que se agitam na direção dos céus. A composição lembra uma Guernica mais dramática porque em movimento. Lamentavelmente, a compreensão das falas é prejudicada, quando a montagem da cena é uma ilustração do texto. Mas este é apenas um pequeno detalhe numa caminhada sem tropeços.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Medéia: a investigação do humano e a afirmação do teatro

(Artigo publicado no jornal Gazeta do Oeste em 8 de agosto de 2007, Primeiro Caderno, p. 2)

Aécio Cândido

Retorna ao palco do Dix-Huit Rosado a peça Medéia – um fragmento, nesta quinta e sexta-feira. Concebida inicialmente para um espaço minúsculo, de 30 a 40 cadeiras, a peça fez temporada o ano passado numa antiga garagem do Alto da Conceição. No palco do Dix-huit Rosado a encenação funciona também muito bem, embora se perca a proximidade com os atores, a escuta das respirações e a impressão de que também os espectadores terminarão o espetáculo suados. Não dá para explicar muito bem, mas essa quase invasão do palco pela platéia, a imersão nos cheiros e nos ruídos do espetáculo criavam uma mística muito particular e era mais um elemento para nos apaixonarmos por ele.

Porque Medéia – um fragmento é apaixonante. Diante do impacto do cenário, da sombra dos atores em frenético movimento pelo palco, o primeiro pensamento que nos vem à cabeça é o seguinte: o teatro pode se dar ao luxo de dispensar a tecnologia. De fato, Marcelo Flecha, o diretor, não precisou dela para recriar o texto de Eurípedes, escrito há quase dois mil e quinhentos anos.

O que dirá o espectador sobre um espetáculo cuja iluminação, em 2007, dispensa toda a parafernália de refletores, canhões e gelatinas, e, em seu lugar, usa apenas velas, essa invenção tão antiga e tão ausente de nosso cotidiano? Dirá certamente que o efeito plástico de 500 velas acesas é não apenas belíssimo, mas que é a melhor forma de sublinhar o desespero e o mergulho na escuridão de um personagem demasiadamente humano em sua imperfeição. Aí parecerão supérfluos recursos tecnológicos mais sofisticados. Desse modo, o teatro se reduz ao seu essencial vital e só requer a emoção dos atores e a força de um texto para se consumar em ato de comunicação e magia.

Harold Bloom, o grande crítico literário americano, sustenta que a sabedoria só se encontra na literatura. De fato, a imprensa nos dá informação, a ciência, conhecimento; mas a sabedoria quem nos dá é a literatura. É ela quem mais eficientemente nos aproxima dos muitos mundos existentes no interior dos homens e fora deles. Aceito isto, o que dizer do teatro, que é mais do que literatura? Teatro é literatura com alma, vida pulsante pela ação de atores e dos recursos de cena. Medéia, como texto literário, é uma exemplificação contundente desta tese. Talvez não haja outra personagem em que o ciúme, o ódio e a vingança – esses sentimentos tão negativamente humanos - sejam mais intensamente revolvidos. E também tão sem complacência consigo mesma, já que não exita em castigar-se castigando o amante através do assassinato dos filhos. Há uma racionalidade, talvez incômoda, no equilíbrio psíquico, se quisermos falar assim, de Medéia. A personagem se equilibra numa loucura que não perde o senso, numa confusão de sentimentos desvairados em que sua monstruosidade encontra justificativa. Mas tudo isso é literatura. Quem a retira deste campo e lhe dá vida é Tony Silva, mais uma vez magistral em cena, que extrai da alma gritos dilacerantes e os empresta ao desespero dessa Medéia solitária e vingativa. Bela surpresa é a interpretação equilibrada de Damásio Costa. A presença de Marcos Leonardo e de Joriana Pontes acrescenta densidade ao espetáculo.

O desafio de qualquer encenador é encontrar o justo equilíbrio entre a intenção do texto e as combinações que a linguagem do teatro colocam ao seu dispor. A montagem que aqui se vê é um dos espetáculos mais belos, harmônicos e exatos que já se viu e se montou em Mossoró. A beleza plástica da iluminação, convertida em cenário, os movimentos cênicos e as interferências do coro, o ritmo frenético da interpretação dos atores são soluções que dão vida ao belo texto de Eurípedes.

A beleza made in Mossoró

(Artigo publicado na Gazeta do Oeste em 12 de dezembro de 2003, Caderno Mossoró, p. 2)


Aécio Cândido
Tenho um amigo em Açu, músico, que ainda não viu o Oratório de Santa Luzia. Açu é bem ali, a 70 quilômetros, o Oratório está sendo apresentado pelo terceiro ano consecutivo, e eu considero esse desconhecimento, num homem sensível, um pecado grave. Descubro ao longo da semana universitários mossoroenses mergulhados na mesma escuridão. Acho um crime. Disse a meu amigo que, na hipótese de uma falta total de transportes entre Açu e Mossoró, valeria a pena vir a pé. A beleza do espetáculo paga, e com sobras, o sacrifício das doze horas de caminhada. Não acho que exagero. Não se trata de um espetáculo qualquer. O Oratório é o espetáculo mais bem acabado a que a cidade já assistiu. Não é pouco. Mossoró é uma cidade de tradição teatral. A história local registra a atuação de grupos nos anos 60 com montagens de clássicos do teatro ocidental (Édipo Rei, por exemplo) e do teatro brasileiro (Eles não usam black-tie, de Guarnieri, e Dona Xepa, de Pedro Bloch). Os anos 70 retiraram o teatro de cena para dar lugar à militância política, em grande parte inspirada nele. Os anos 80 foram de teatro político, mambembe e militante (Grupo Terra, se me permitem uma auto-citação). Os anos 90 foram de agitação teatral, de ocupação de espaços físicos (o Cine Caiçara) e estéticos (Grupo Nocaute à Primeira Vista). O novo século se iniciou com um ciclo diferente, o dos grandes espetáculos ao ar livre, assinados por um encenador nacionalmente reconhecido (Auto da Liberdade, Chuva de Balas no País de Mossoró, Oratório de Santa Luzia). Em toda esta história, o Oratório é o espetáculo de maior harmonia, equilíbrio e graça. É também o de maior inspiração.

O Oratório reúne, talvez mais por acaso do que por determinação, talentos muito especiais, e o que resulta daí é um grande espetáculo. O encontro de João Marcelino, diretor, com Danilo Guanais, autor da música, Marcos Leonardo, criador do figurino e adereços, Tony Silva, a grande artífice da emoção, e Clézia Barreto, coreógrafa, não é algo que possa acontecer todo dia em qualquer esquina. Encontros desta natureza só de décadas em décadas. Temos aí um conjunto de talentos, de criadores luminosos, que o Rio Grande do Norte, no seu encabulamento de província, ainda não soube apreciar e reverenciar com toda a intensidade que eles merecem. A música de Danilo Guanais é majestosa. No Oratório, ela é responsável por muito da dramaticidade e da emoção do espetáculo. João Marcelino é o encenador cerebral e emotivo, nordestiníssimo e universal. Sua concepção de espaço, de volume, de cor, de movimento, de intensidade emocional produzem um espetáculo que embebeda os sentidos. Quem vê a suntuosidade das roupas e dos adereços não pode imaginar que ali estão canudinhos de plástico, palitos de churrasco, pegadores de roupa, abridores de lata de refrigerante e buchas de louça esculpindo o luxo e a miséria de uma época. É o louvor de Marcos Leonardo à criatividade. Tony Silva vive hoje uma fase luminosa e a maturidade artística construída ao longo de duas décadas de interpretação contínua a coloca ao lado das maiores atrizes do teatro brasileiro. Clézia veste o espetáculo de leveza.

Espetáculos como o Oratório - pela grandiosidade, pelo número de artistas que envolve, pelos objetivos que possui - correm o risco de produzirem uma encenação desigual, sem harmonia, com um ou dois atores brilhando em cima da figuração de gente excessivamente amadora e sem maior expressividade em cena. Não é o caso, absolutamente. O Oratório, em sua terceira versão, é um espetáculo homogêneo, limpo, ágil, afinado, sem desníveis de interpretação. A presença de Tony Silva, num de seus maiores papéis, o da cega Nicácia, tem o brilho fortíssimo de sua marca interpretativa, mas não compromete em nada a interpretação dos outros. O destaque de uma ou outra interpretação fica por conta dos detalhes e dos grandes achados de composição dos personagens, como é o caso da mão nervosa da cega Nicácia, que se abre e fecha freneticamente, lembrando algumas cegas de nossa infância nordestina, ou a voz de baixo de Nonato Silva, sem agudos de qualquer espécie, para compor um bispo que é autoridade mas que também é ternura. Esse equilíbrio é talvez a marca mais admirável do espetáculo.

Mas tem mais. João Marcelino é o mais teatral dos diretores desse novo ciclo. A função do teatro é contar, limitado pelo espaço do palco, uma história para o espectador. Mais do que contar, fazer viver. Para simplesmente contar uma história existe o romance, o conto, a novela. O teatro faz personagens viverem uma história, transitando em vários lugares, expressando variadas emoções misturadas em diversos tempos. Se o cinema mostra, o teatro sugere. Sugere a passagem do tempo, sugere os espaços por onde o personagem se movimenta. E sugestão é transmutação de uma coisa em outra. Daí porque no Oratório, o cavalo é a simulação de um cavalo, com as componentes que o imaginário medieval produziu de um cavalo endemoinhado que serviu ao martírio de uma virgem - botando fumaça pelas ventas e fogo pelos olhos. Esta é a representação verossímil de um imaginário fantástico. Mas isto não é tudo: o cavalo é feito de ferro, com dois tambores de metal como corpo, seguindo um desenho esquemático infantil. O cavalo é, enfim, uma solução teatral. E de soluções genialmente teatrais está cheio o trabalho de João Marcelino. Porque o diretor precisa criar soluções para se sair do impasse que lhe impõe o espaço cênico. Ele só tem um, e esse um precisa ser todos. Ou seja, o trabalho do diretor é tornar inteligível num só espaço todos os outros espaços por onde a história circula.

E como teatro não é só o que ocorre no palco, impressiona que Mossoró reúna uma equipe de produção, Jocelito Barbosa à frente, tão precisa no seu trabalho. Reconheça-se também à COSERN a inteligência e a sensibilidade para investir na beleza, na criatividade e no bom gosto. Se bom gosto e competência se espalhassem em outras áreas da cidade, no setor público e no privado, muito em breve seríamos uma cidade de Primeiro Mundo, para usar uma comparação do agrado de muita gente.